"Sinceramente, me sinto um imundo. O menor dos homens mortais… Solto meu grito fraco, quase mudo. Palavras que amei, não as amo mais. Eram para trazerem somente contento a todos que ousassem bebê-las. Folhas caídas libertas ao suave vento… Nunca achei que levariam tristezas. Amaldiçoo o ventre da tristeza que deu à luz a um nó de cascáveis. Eu era menos perdido quando não tinha lágrimas, quando não possuía amores… Quando não possuía a mim mesmo. Eu quis me completar, me bastar. E costurei com a linha dos desesperados o meu coração em tua pele. Eu quis cobrir meu corpo com o teu calor, com o teu cheiro, tua presença. Mas você é arco-íris e a tempestade demora a vir… Corro, sangro, me desfaço e a recompensa é tua imagem refletida em meus olhos marejados. Quero te encher com minha poesia em papel de pão, quero ser a estrada que tu pisas, para que não me deixes jamais, para que craveje em mim pelo menos a saudade dos dias monótonos de uma paixão idealizada e antiga demais. Mas a chuva apenas tira o suor e ameniza o cansaço… Eu preciso morar nas águas do teu infinito. Mas te soltei e me enforquei com a corda que te prendia. Te liberto, me condeno. Me condeno a ser poeta e te liberto em poesia. Palavras, palavras, estrofes, versos, palavras, hiatos, ditongos, versos, tristeza, saudade, melancolia, rimas, dor, versos, romance, palavras, palavras… Decepção."
—Cinzentos
"E lá vou eu, nas minhas tentativas, às vezes meio cegas, às vezes meio burras, tentar acertar os passos…"
—Caio Fernando Abreu.